Geopolítica do Petróleo, Inflação e Eleições: Os Impactos da Guerra no Oriente Médio na Economia Brasileira
Como o novo conflito no Oriente Médio pode pressionar a inflação global e influenciar o cenário econômico e político brasileiro.
Por Adriane Barbosa e Victor Lima
O conflito militar recente envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos reacendeu temores nos mercados internacionais sobre um possível choque no preço do petróleo e seus efeitos sobre a economia global. Conflitos no Oriente Médio historicamente têm potencial para provocar fortes oscilações no mercado de energia, uma vez que a região concentra parte significativa da produção e das rotas estratégicas de transporte de petróleo no mundo.
No dia 28 de fevereiro, Israel e Estados Unidos surpreenderam o Irã com um ataque conjunto que desencadeou uma escalada militar entre os países. O episódio ocorreu em um momento particularmente delicado, pois Washington e Teerã estavam envolvidos em negociações indiretas, mediadas internacionalmente, acerca do programa nuclear iraniano. As rodadas de negociação haviam ocorrido poucos dias antes, em Genebra, nos dias 26 e 27 de fevereiro.
Em resposta ao ataque — que teria provocado a morte do Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei —, o governo iraniano lançou ofensivas contra alvos militares israelenses e norte-americanos, além de adotar medidas que restringem o fluxo de navios no Estreito de Ormuz. Esse estreito é uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo, sendo responsável por cerca de um quinto do fluxo global da commodity.
O Irã é atualmente o terceiro maior produtor da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), respondendo por aproximadamente 4,5% da produção global, com cerca de 3,3 milhões de barris de petróleo por dia, além de aproximadamente 1,3 milhão de barris de condensados e outros líquidos. A combinação entre conflito militar e risco de interrupção logística fez com que os preços internacionais do petróleo reagissem rapidamente. Nos últimos dias, o barril superou a marca de US$100 nos mercados internacionais.
Figura 1 – Série histórica do preço do petróleo brent futuros (out.2025 – mar.2026)
Fonte: Extraído do site investing.com
Autoridades iranianas chegaram a afirmar que, caso o conflito se prolongue, o mundo deve se preparar para preços por barril próximos a US$200. Analistas do Goldman Sachs, contudo, projetam um cenário menos extremo, estimando valores acima de US$100 no curto prazo e uma possível acomodação para níveis próximos de US$85 no mês de abril.
Do ponto de vista macroeconômico, um choque prolongado nos preços do petróleo tende a gerar pressões inflacionárias globais e riscos de desaceleração econômica. O encarecimento da energia eleva custos de produção e transporte, podendo afetar cadeias produtivas inteiras e pressionar índices de preços ao consumidor. Em cenários mais extremos, episódios dessa natureza podem inclusive produzir combinações de inflação elevada e baixo crescimento econômico (estagflação).
Embora o conflito ocorra a milhares de quilômetros do Brasil, seus efeitos econômicos tendem a ser rapidamente transmitidos para a economia brasileira. O país é um grande produtor e exportador de petróleo bruto, especialmente após a expansão da produção no pré-sal. Entretanto, o Brasil ainda possui limitações relevantes em sua capacidade de refino, o que faz com que parte significativa dos derivados utilizados internamente, como gasolina e diesel, seja importada.
Estimativas recentes indicam que o país importa cerca de 10% da gasolina consumida e até 25% do diesel utilizado na economia. Isso significa que aumentos no preço internacional do petróleo e de seus derivados acabam sendo parcialmente transmitidos ao mercado doméstico. Além disso, a Petrobras, apesar de ser uma empresa de economia mista com participação estatal, precisa considerar os preços internacionais em sua política de preços, o que também contribui para a transmissão dessas oscilações ao consumidor final.
Diante desse cenário, o governo brasileiro anunciou recentemente medidas emergenciais com o objetivo de conter pressões inflacionárias. Entre elas está a decisão de zerar temporariamente o PIS e Cofins sobre o diesel, numa tentativa de reduzir o impacto imediato da alta internacional do petróleo sobre o preço dos combustíveis.
A medida possui efeito relevante no curto prazo, sobretudo em um contexto político sensível. O país se aproxima de um novo ciclo eleitoral que tende a ser altamente polarizado, e aumentos abruptos nos preços dos combustíveis podem gerar forte desgaste político para o governo de turno. Entretanto, políticas desse tipo também possuem custos fiscais consideráveis e podem se tornar difíceis de sustentar caso o choque internacional de preços se prolongue.
Por outro lado, o cenário também pode abrir uma janela de oportunidade estratégica para o país. O aumento das receitas provenientes da exportação de petróleo pode fortalecer as contas externas brasileiras e ampliar a acumulação de reservas internacionais. Ao mesmo tempo, o debate sobre o papel da Petrobras na economia tende a ganhar força, especialmente no que diz respeito à sua atuação como instrumento de estabilização de preços e como potencial protagonista na transição energética.
Em um mundo marcado por crescente instabilidade geopolítica e choques frequentes no mercado de energia, episódios como esse reforçam a importância de estratégias nacionais que combinem segurança energética, estabilidade macroeconômica e planejamento de longo prazo.
Referências
G1. 3º maior produtor de petróleo do mundo, Irã tem teocracia xiita, mas não é árabe; entenda o país.
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/02/3o-maior-produtor-de-petroleo-do-mundo-ira-tem-teocracia-xiita-mas-nao-e-arabe-entenda-o-pais.ghtml
G1. Guerra no Irã pressiona mercados globais de energia.
https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/03/07/guerra-no-ira-mercados-globais-de-energia.ghtml
G1. Irã diz ao mundo para se preparar para petróleo a US$200 o barril.
https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/03/11/ira-diz-ao-mundo-para-se-preparar-para-petroleo-a-us-200-o-barril.ghtml
CNN Brasil. Goldman Sachs prevê aumento de preços do petróleo em 2026.
https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/goldman-sachs-preve-aumento-de-20-nos-precos-do-petroleo-em-2026/
O Globo. Pacote antiturbulência: governo zera imposto do diesel para conter impacto da guerra.
https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/13/pacote-antiturbulencia-governo-zera-imposto-do-diesel-para-conter-impacto-da-guerra-e-reduzir-risco-eleitoral.ghtml
International Energy Agency (IEA). Oil Market Report.
https://www.iea.org
U.S. Energy Information Administration (EIA). World Oil Transit Chokepoints.
https://www.eia.gov